“ENSINAR INGLÊS É POUCO?”: A INTRIGANTE REINCIDÊNCIA DO MAL-ESTAR (I)NOMINADO

Renata Nascimento Salgado

Resumo


Nunca é demais rememorar as notórias condições de trabalho que aturdem os professores brasileiros: salários reduzidos, más condições de trabalho, violência em sala de aula, acúmulo de obrigações, baixo prestígio e falta de reconhecimento junto à sociedade. Dentre estas, grifo as duas últimas, enquanto foco de investigação para este artigo, por querer investigar o impacto dessas condições no exercício profissional daqueles que são formados na área. É certo que paira um senso comum dominante a respeito do que sejam e o que fazem, então, os profissionais licenciados para o ensino de Língua Inglesa. A reincidente pergunta: “você dá aula de inglês?”, meu exemplo seminal, permanece e, não raras vezes, emerge enquanto opinião e sentença. Tão logo, sua materialização possibilita um rico espaço de análise discursiva, onde subliminares interpretações desvelam uma pueril e deformada compreensão do afazer profissional em si, quando afirma que “ensinar inglês é pouco”, ou questiona se “esse é o único trabalho por ele exercido”, questionando sua suficiência, denegrindo sua finalidade. Mais ainda, é possível imaginar que o professor, enquanto sujeito desta interpretação, compreenda o ‘só’ como ‘sozinho’, como ‘solitário’, posto a natureza equívoca da linguagem e de seus subjetivos sentidos produzidos, sejam por nós ou pelo outro. Dito isso, interpretar o discurso de professores formados em Letras, com habilitação para o ensino de Língua Inglesa, e, mais especificamente, discernir como que um grupo de professores formados em Letras – inclusos no intervalo temporal que abrange desde 1980 até 2010 – pensam sobre “o que são” e como se portam frente a esta situação, constituem o objetivo e corpo da presente investigação. Haja vista meu interesse na pesquisa de assuntos que envolvem a Linguística Aplicada e seus desdobramentos, para a supracitada tarefa, inscrevo a pesquisa a partir de uma tríplice perspectiva linguístico-discursivo-psicanalítica. Uma conjuntura conceitual multidisciplinar que se implica e colabora na tentativa de compreensão sobre o que está em jogo nessa teia de representações, as quais, conjecturo desde já, são de ordem identitária e identificatória, uma vez observada a insistente referência diminutiva alocada para aqueles que optam pela carreira de professor de inglês, a saber: “só”, “pouco” e “único”. Assim, tais referências abrem o devido espaço para a perscrução de outras (re)significações, bem como de suas fontes, permitindo que se pense também na história que forjou esse sujeito.

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DOI: https://doi.org/10.18554/ri.v6i2.410

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 ISSN 1981-0601

 Qualis B2 (LINGUíSTICA E LITERATURA/ Quadriênio 2013-2016)