Relevância clínica de exercícios específicos e globais para mulheres com disfunção temporomandibular: análise secundária de um ensaio clínico randomizado
Resumo
CONTEXTUALIZAÇÃO: Evidências preliminares reportam que a combinação de exercícios específicos para a coluna cervical com exercícios aeróbicos é promissora para reduzir os sintomas relacionados à dor orofacial. Entretanto, poucos estudos investigaram os efeitos do exercício aeróbico para sintomas de disfunção temporomandibular (DTM). Além disso, clínicos e pesquisadores estão cada vez mais interessados em determinar se os efeitos de terapias são clinicamente relevantes com base nas percepções dos pacientes, facilitando a tomada de decisão terapêutica. OBJETIVOS: Avaliar a relevância clínica dos efeitos adicionais do treinamento aeróbico de intensidade moderada aos exercícios cervicais em mulheres com DTM crônica. MÉTODOS: Foi realizado um ensaio clinico controlado e randomizado com aprovação ética prévia (n. 5.188.880). 58 mulheres com diagnóstico de DTM crônica foram alocadas em dois grupos: (1) exercícios cervicais (grupo controle (GC); n=30); e (2) exercícios cervicais com treinamento aeróbico (grupo experimental (GE); n=28). Os desfechos primários foram a intensidade da dor orofacial (Escala Visual Analógica de 0 a 100 mm) e a incapacidade cervical (Índice de Incapacidade do Pescoço; NDI, 0 a 50 pontos). As mulheres foram avaliadas antes e depois de 16 sessões de tratamento e em um mês de follow-up. Foram usados métodos baseados na distribuição (tamanho de efeito d de Cohen) e ancoragem (diferença média [DM]; diferença minimamente importante [MID]; e curva ROC). A escala de percepção da mudança (GRCS) de 11 pontos (-5 a +5) foi usada como âncora. As mulheres que obtiveram uma pontuação de +2 a +5 foram classificados como respondedoras. RESULTADOS: A idade média foi de 31 ± 8,45 anos. Não foram observadas diferenças entre os grupos na linha de base. 45 mulheres foram classificadas como respondedoras e 13 como não respondedoras. Para a intensidade da dor orofacial, o tamanho do efeito intra-grupo foi grande (d = 1,10 para GC e 1,45 para o GE) e inter-grupos foi pequeno (d = 0,259). A MID obtida por meio da curva ROC foi de 28,95, com sensibilidade de 60%, especificidade de 85% e AUC de 0,72. A DM foi de 17,05. Para a incapacidade do pescoço, o tamanho do efeito intra-grupo foi moderado (d = 0,70 para o GC e 0,55 para o GE) e o tamanho do efeito entre inter-grupos foi pequeno (d = 0,159). A MID obtida por meio da curva ROC foi de 1,04, com uma sensibilidade de 64%, especificidade de 62% e AUC de 0,63. A DM foi de 2,18. CONCLUSÕES: A menor mudança percebida como benéfica ou significativa para mulheres com DTM crônica submetidas a um protocolo de exercícios variou entre 17,05 e 28,95 (na escala de 0 a 100 mm) para a intensidade da dor orofacial e entre 1,04 e 2,18 pontos no NDI. Os resultados sugerem que, embora o exercício aeróbico adicional possa oferecer algum benefício extra, sua relevância clínica é modesta. Futuros estudos devem investigar diferentes protocolos e mecanismos envolvidos nos efeitos observados. IMPLICAÇÕES: Este estudo reporta parâmetros clinicamente relevantes que podem ser usados como orientação para determinar os efeitos de intervenções semelhantes em pacientes com disfunções craniocervicais e orientar a tomada de decisões. A adição do exercício aeróbico moderado mostrou benefícios modestos, devendo ser considerada e respeitada a individualidade no plano terapêutico.