IMPACTO DA ENTORSE LATERAL AGUDA DE TORNOZELO NA ARQUITETURA MUSCULAR E PROPRIEDADES TENDÍNEAS
Resumo
CONTEXTUALIZAÇÃO: A entorse de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas agudas de maior acometimento na população mundial (IVINS, 2006), e a lesão ortopédica mais comum no complexo tornozelo-pé que leva indivíduos a buscar ajuda médica (DOHERTY, 2014; NABIAN, 2017). Mesmo sendo a lesão mais comum deste complexo e a alta prevalência e incidência apresentada, foi relatado que apenas aproximadamente 50% dos indivíduos que sofrem de entorse aguda de tornozelo (LAS) procuram atendimento médico(VERHAGEN, 2000; VUURBERG, 2017). Entorses do tornozelo são geralmente classificadas com base na severidade da lesão, nível de comprometimento tecidual e nível de comprometimento funcional. Utiliza-se um sistema de classificação em 3 níveis de lesão. No grau I, ocorre um estiramento leve do complexo ligamentar sem instabilidade articular. No grau II, ocorre uma ruptura parcial do complexo ligamentar acarretando instabilidade articular leve. E no grau III, ocorre uma ruptura ligamentar completa, promovendo instabilidade articular. (MALLIAROPOULOS et al., 2006). Além disso, a entorse lateral de tornozelo é a mais comum quando comparada às entorses mediais e às lesões de sindesmose por entorse de tornozelo (DOHERTY, 2014). Após uma LAS, a dor, inchaço e equimoses são comuns, o que pode contribuir para a redução da mobilidade e função, bem como ausência ocupacional e a incidência de sintomas residuais após entorse aguda do tornozelo é variável, mas tem sido relatada com taxas entre 40 e 50% (SMITH el al. 1986). Uma das consequências imediatas de uma lesão por entorse lateral de tornozelo é a diminuição da descarga de peso corporal sobre o membro lesionado, do uso do membro para atividades diárias, e uma possível imobilização do membro. Esta condição de desuso leva a uma diminuição da massa muscular (atrofia muscular), diminuição da força muscular e consequente diminuição da função física do indivíduo lesionado (DOHERTY et al., 2014; HERSHKOVICH, 2015). Nesse sentido, a carência de investigações acerca das possíveis alterações das propriedades tendíneas humanas decorrentes de desuso por lesões articulares, juntamente com a lacuna de informações sobre as propriedades do tecido muscular após entorse lateral aguda do tornozelo, evidenciam a necessidade de se explorar e compreender as reais adaptações morfológicas, mecânicas e materiais dos tecidos musculares e tendíneos, com isto, poderemos ter decisões mais assertivas a respeito das adaptações em que ocorrem na entorse aguda de tornozelo e possivelmente direcionar para que não evolua para novas entorses, consequentemente, instabilidade crônica de tornozelo. OBJETIVOS: Objetivos principais: Avaliar consequências que ocorrem na arquitetura de músculos Peri articulares de tornozelo e propriedades tendíneas de tendão de Aquiles e fibulares, função física e funcionalidade, percepção de dor e edema nas primeiras 72h e em 6 semanas pós entorse lateral aguda do tornozelo de graus I e II e compará-los a um grupo controle composto por participantes aparentemente saudáveis. Objetivos secundários:Mensurar nos mesmos participantes: Mensurar a espessura muscular; Avaliar o ângulo de penação muscular; Determinar o comprimento de fascículo muscular nos mesmos participantes; Medir a ecogenicidade muscular; Avaliar a rigidez muscular; Mensurar a área de secção transversa do tendão; Determinar a rigidez tendínea; Medir a ecogenicidade tendínea; Medir escala funcional de membros inferiores. MÉTODOS: Trata-se de um estudo observacional, com amostra composta por participantes de pesquisa diagnosticados com entorse lateral aguda de tornozelo. Além disso, foi utilizado um grupo controle hígido e equiparado em relação às variáveis antropométricas e demográficas comparado ao grupo Entorse. O estudo foi conduzido no Laboratório de Plasticidade MusculoTendínea (LaPlasT) da Faculdade de Ceilândia (FCE), Universidade de Brasília. Participantes de ambos os sexos, com idade entre 18 e 60 anos, apresentando entorse lateral de tornozelo nas 72 horas prévias à avaliação. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Ceilândia – CEP/FCE da Universidade de Brasília – UnB, CAAE: 68997923.2.0000.8093, de acordo com a Resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). A participação dos sujeitos na pesquisa ocorreu de forma voluntária mediantea assinatura do TCLE. Inicialmente, os participantes foram recrutados pelos pesquisadores por meio de ampla divulgação em redes sociais (Instagram, Facebook, Instagram, WhatsApp e Telegram). Além disso, foram elaborados comunicados tipo folder e cartaz, indicando o objetivo, a finalidade, os critérios e o local de coleta deste estudo. Todos os pacientes que se encaixaram nos critérios de elegibilidade, avaliados para isso pela equipe de pesquisa, foram convidados a participar do estudo. Aqueles que aceitaram participar foram encaminhados para a avaliação inicial (avaliação 01), a ser realizada em até 72 horas após o momento da lesão, e foram convidados a fazer a avaliação 02 a ser realizada 6 semanas após a avaliação 01. O Grupo Controle, composto por participantes aparentemente saudáveis, passou pelas mesmas 2 avaliações, com intervalo de 6 semanas entre cada. Para caracterização da amostra, foram sendo obtidas variáveis demográficas (idade e sexo), antropométricas (altura e peso) e clínicas (etiologia, nível e fase de lesão da entorse lateral de tornozelo). Durante a avaliacao 01 e 02, os participantes foram avaliados e comparados ao Grupo Controle quanto às propriedades musculares (espessura muscular, angulo de penação, comprimento de fascilulo, e ecogenicidade muscular) dos musculos Gastrocnemio medial(GM), gastrocnemio lateral (GL) , sóleo (SO) e fibulares(FIB), arquitetura tendínea (Comprimento do tendão, Área de secção transversa e ecogenicidade) do tendao de aquiles (AT), função física e funcionalidade (questionarios funcionais ) Questionarios funcionais Lower Extremity Functional Scale (LEFS) e Foot and Ankle Outcome Score (FAOS), percepção de dor (Escala visual analogica - EVA) e edema (perimetria figura oito). RESULTADOS: Os resultados do estudo revelaram importantes alterações nas características musculares e funcionais dos indivíduos com entorse lateral aguda de tornozelo ao longo do tempo, quando comparados entre a avaliação 1 (realizada até 72 horas após a lesão) e a avaliação 2 (seis semanas após a lesão). Primeiramente, observou-se uma redução na espessura muscular dos músculos sóleo (SO), gastrocnêmio lateral (GL) e gastrocnêmio medial (GM) após seis semanas, indicando um comprometimento significativo da massa muscular logo após a lesão. No entanto, o músculo fibular (FIB) não apresentou essa redução, sugerindo que ele pode ter respondido de maneira diferente ou mantido sua integridade funcional durante o processo de recuperação. Em relação ao ângulo de penação, foram observadas reduções significativas para os músculos SO, GM e FIB, enquanto o GL não apresentou alteração. A redução do ângulo de penação pode indicar uma adaptação muscular que potencialmente compromete a eficiência da contração muscular, afetando a força gerada por esses músculos. O comprimento do fascículo apresentou uma redução para os músculos GM e GL, enquanto houve um aumento para SO e FIB. Essas variações podem refletir mudanças na estrutura muscular e na capacidade de gerar força, sugerindo que a recuperação não se deu de maneira uniforme entre os grupos musculares. Adicionalmente, a ecogenicidade aumentou para os músculos SO, GM e FIB, exceto para o GL, o que pode ser interpretado como uma melhora na qualidade do tecido muscular ao longo do processo de reabilitação. Esse aumento de ecogenicidade é frequentemente associado à recuperação do tecido, indicando uma possível regeneração muscular. Quanto ao tendão de Aquiles, houve uma redução na área de seção transversal e na ecointensidade, o que pode indicar alterações estruturais que requerem atenção, uma vez que essas mudanças podem afetar a funcionalidade e a resistência do tendão durante a recuperação. Finalmente, os resultados mostraram melhorias significativas na função física e na funcionalidade dos participantes, acompanhadas de uma redução da dor e do edema. Essas melhorias são encorajadoras, pois indicam que a reabilitação ao longo de seis semanas contribuiu para a recuperação funcional dos indivíduos afetados pela entorse lateral do tornozelo. CONCLUSÕES: Este estudo revelou que indivíduos com entorse lateral aguda do tornozelo de graus I e II apresentam alterações significativas na arquitetura muscular e na funcionalidade. Especificamente, observou-se uma redução na espessura muscular, no ângulo de penação e no comprimento fascicular, indicando um comprometimento da capacidade muscular que pode afetar a recuperação e a estabilidade do tornozelo. Além disso, os participantes relataram perda de funcionalidade, presença de edema e exacerbação da dor, refletindo a complexidade da lesão e seus efeitos no cotidiano dos indivíduos afetados. Após um período de 6 semanas de acompanhamento, os parâmetros avaliados mostraram uma tendência de recuperação, aproximando-se dos valores observados no grupo controle saudável. IMPLICAÇÕES: O presente estudo fornece a base para o entendimento da mecânica muscular e tendínea após lesão lateral aguda do tornozelo, em especial para gerar hipóteses sobre as instabilidades crônicas de tornozelo comumente observadas na prática clínica.