Correlação entre fatores sociodemográficos de fisioterapeutas brasileiros e crenças sobre o manejo da dor lombar
Resumo
CONTEXTUALIZAÇÃO: A dor lombar (DL) é uma das condições musculoesqueléticas mais frequentes e incapacitantes mundialmente, afetando entre 85% e 95% da população ao longo da vida. Mesmo com as orientações clínicas definidas, persistem obstáculos na aplicação do modelo biopsicossocial e resistência às alterações de paradigma. Atualmente, grande parte dos fisioterapeutas ainda utilizam métodos que não estão em conformidade com as diretrizes, e 81% seguem práticas sem respaldo científico. Características sociodemográficas, tais como, tempo de formação e tipo de trabalho, podem influenciar as crenças dessa população, porém não existe um consenso sobre suas correlações. É essencial investigar esses fatores para desenvolver intervenções eficazes e alinhadas às melhores evidências científicas. OBJETIVOS: Investigar a associação entre as características dos fisioterapeutas e suas crenças sobre a dor lombar. MÉTODOS: Estudo observacional, transversal e de análise secundária, utilizando dados de um ensaio clínico randomizado (ECR) que avaliou um programa educativo online para modificar crenças de fisioterapeutas sobre DL. O protocolo do ECR foi registrado no ClinicalTrials.gov (NCT05661968). População: Foram incluídos no estudo fisioterapeutas brasileiros com atuações recentes no manejo de DL. Coleta de Dados: Realizada via plataforma REDCap, com questionários sobre características sociodemográficas e questionários sobre crenças e atitudes no manejo de DL. Análise: Utilizou o modelo de Regressão Linear para encontrar relações entre variáveis independentes (tempo e nível de formação, histórico de DL, tipo de serviço, conhecimento e aplicação das diretrizes) e a variável dependente (Modified Back Beliefs Questionnaire MBBQ, escala de -50 a 50). Aprovação Ética: O ECR em questão foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais (CAAE 60756422.6.0000.5149). RESULTADOS: 119 fisioterapeutas foram incluídos. A média de idade foi de 32 anos (DP=9), e a maioria dos participantes (59%) tinha menos de 5 anos de experiência clínica. Fisioterapeutas que trabalhavam de forma autônoma apresentaram crenças mais alinhadas com as evidências atuais (Beta = 6,5; IC95%: 0,8, 12,2) do que aqueles que trabalhavam no setor público. Aqueles que não seguiam as recomendações das Diretrizes de Prática Clínica demonstraram crenças menos alinhadas com as evidências (Beta = -4,4; IC95%: -8,1, -0,6). Participantes com mais de 10 anos de experiência podem apresentar crenças menos alinhadas com as evidências atuais (Beta = -3,8; IC95%: -7,8, 0,2) em comparação com aqueles com menos de 5 anos desde a graduação. CONCLUSÕES: A adesão às diretrizes, o ambiente de trabalho e, possivelmente, os anos de experiência clínica podem influenciar as crenças dos fisioterapeutas sobre a DL. Estratégias de disseminação podem precisar focar naqueles com mais experiência clínica e que trabalham no setor público. IMPLICAÇÕES: Os achados sugerem a necessidade de políticas educacionais que incentivem o uso de diretrizes, especialmente no setor público. Programas de educação continuada podem ser fundamentais para modificar crenças desatualizadas e melhorar o manejo da DL. Futuras pesquisas devem explorar barreiras e facilitadores na implementação de práticas baseadas em evidências.