EFEITOS DO BALLET CLÁSSICO NA FLEXIBILIDADE DE TRONCO E MEMBROS INFERIORES: ESTUDO DE COORTE
Resumo
CONTEXTUALIZAÇÃO: O ballet exige altos níveis de flexibilidade para execução de movimentos específicos, influenciando tanto o desempenho quanto o risco de lesões. A prevalência de dor lombar em bailarinas varia entre 20,3% e 79%, enquanto as lesões na coluna lombar correspondem a 2,1% a 88% do total. A sobrecarga nessa região pode estar relacionada a déficits ou excessos de mobilidade, tornando essencial avaliar a flexibilidade para compreender seus impactos na saúde musculoesquelética e no desempenho. OBJETIVOS: Comparar os efeitos do ballet na flexibilidade do tronco e membros inferiores ao longo de 1 ano. MÉTODOS: Estudo de coorte prospectivo realizado de dezembro de 2022 a junho de 2024 (CAEE: 2024 52719921.0.0000.0102). Foram selecionadas bailarinas de 18 a 60 anos, acompanhadas por um ano em três avaliações: inicial (AV1), após 6 meses (AV2) e ao final de 1 ano (AV3). O grupo controle (GC) incluiu mulheres fisicamente ativas na mesma faixa etária. A flexibilidade de tronco e membros inferiores (MMII) foi avaliada pelo Teste de Sentar e Alcançar (TSA), e a flexão lombar pelo Teste de Schober Modificado (TSM). Na análise estatística, utilizou-se ANOVA para análise intragrupo e teste t independente para análise intergrupo. RESULTADOS: Foram avaliadas 16 mulheres (8 bailarinas e 8 do GC), com idade média de 28,19 ± 11,93 anos. No TSA, as bailarinas apresentaram 40,56±10,93cm; 40,79±11,55cm; 41,14±12,16cm nas avaliações 1, 2 e 3, respectivamente; e no GC 22,45±10,93cm; 22,96±11,55cm; 24,13±12,16cm. As bailarinas foram classificadas como "muito bom" (37-40cm) na AV1 e AV2 e "excelente" (>41cm) na AV3; enquanto o GC obteve médias "insuficientes" (<27cm) de acordo com a literatura. A flexibilidade no grupo das bailarinas manteve-se inalterada entre AV1-AV2 (p=0,77), AV1-AV3 (p=0,91) e AV2-AV3 (p=0,95); no GC também não houve diferença significativa entre os momentos AV1-AV2 (p=0,49), AV1-AV3 (p=0,22) e AV2-AV3 (p=0,35). Na comparação intergrupo, houve diferença significativa nas três avaliações (p<0,05). No TSM, as bailarinas apresentaram as seguintes médias em AV1, AV2 e AV3, respectivamente: 7,59±4,98cm; 6,73±6,94cm; 6,37±5,15cm, e o GC: 7,96±4,98cm; 8,39±6,94cm; 8,05±5,15cm. As bailarinas apresentaram médias dentro da referência (>6,71 cm) nas duas primeiras avaliações e abaixo na terceira; o GC manteve-se dentro da referência em todas. A flexibilidade lombar das bailarinas reduziu entre AV1-AV3 (p=0,01), mantendo-se inalterada entre AV1-AV2 (p=0,52) e AV2-AV3 (p=0,2). No GC, não houve diferença significativa entre as avaliações: AV1-AV2 (p=0,59), AV1-AV3 (p=0,83) e AV2-AV3 (p=0,57). Na comparação intergrupo, não foram observadas diferenças significativas (p>0,05). CONCLUSÕES: As bailarinas apresentaram flexibilidade de tronco e membros inferiores superior à do GC, mas sem evolução ao longo do tempo. Quanto à flexibilidade lombar, as bailarinas apresentaram redução ao longo de 1 ano, sugerindo tendência à perda de mobilidade lombar e provável retificação da coluna, possivelmente devido a especificidade do treinamento, podendo representar um fator de sobrecarga e risco de lesão na região lombar. IMPLICAÇÕES: Os achados destacam a importância de estratégias que priorizem a mobilidade lombar no preparo físico das bailarinas, contribuindo para a prevenção de lesões e melhora do desempenho por meio da fisioterapia preventiva.