Como a Implementação de Modelos de Saúde Baseada em Valor Pode Transformar o Cuidado de Quadros Osteomusculares na Saúde Suplementar
Resumo
CONTEXTUALIZAÇÃO
A dor crônica, especialmente a musculoesquelética, é uma das condições de saúde mais incapacitantes no
mundo. Ela afeta todas as idades e regiões, com prevalência crescente nas últimas três décadas. Nos Estados
Unidos, em 2014, o custo total estimado chegou a US$ 874 bilhões. A dor na coluna lombar se destaca como a
principal causa de incapacidade desde 1990, segundo o “Global Burden of Diseases” do Institute for Health
Metrics and Evaluation, sendo a mais incapacitante em 160 países, incluindo o Brasil.
Apesar de avanços em pesquisas, diretrizes clínicas e milhares de publicações científicas, tanto a incapacidade
quanto os custos relacionados à dor crônica musculoesquelética aumentaram, especialmente em países de baixa
e média renda. Parte significativa desse impacto decorre do percurso inadequado dos pacientes nas redes de
atenção à saúde. No Brasil, 36,5% das visitas a prontos atendimentos e 16,7% das internações hospitalares estão
relacionadas à dor lombar, embora não seja recomendado procurar serviços de alta complexidade como
primeira opção.
O acesso primário a profissionais a especialistas contribui para o aumento de exames e intervenções
desnecessárias. A realização de exames de imagem para dor não só eleva os custos para o sistema de saúde
público e privado, como também retarda o início de tratamentos adequados, não melhora os resultados clínicos
e aumenta a probabilidade de cirurgias e tratamentos de baixo valor.
Um fator central para essa trajetória inadequada é o modelo predominante de remuneração no Brasil, o “feefor-
service”, em que os prestadores são pagos pela quantidade de procedimentos realizados, sem considerar
desfechos clínicos ou qualidade do atendimento. Esse modelo incentiva o aumento de volume de serviços, sem
o compromisso com a efetividade ou impacto/desfecho na saúde do paciente.
Em contraponto, cresce internacionalmente o modelo de saúde baseada em valor (Value-Based Healthcare —
VBHC), cujo objetivo é aumentar o valor do cuidado, definido como a relação entre desfechos alcançados e
custos envolvidos. Para sua aplicação prática, é fundamental medir desfechos relevantes para os pacientes e
custos do tratamento, além de basear o cuidado na melhor evidência científica disponível. Esse enfoque
melhora a qualidade dos serviços e reduz custos, pois prevenir e tratar adequadamente é menos oneroso do que
lidar com complicações e agravos à saúde.
O principal desafio do VBHC é mudar o foco do volume de atendimentos para a qualidade e efetividade do
serviço prestado. No contexto brasileiro, a adoção desse modelo enfrenta obstáculos como a falta de coleta
sistemática de dados e de indicadores de desfechos clínicos, essenciais para a tomada de decisão.
Nesse cenário, as healthtechs surgem como aliadas estratégicas, oferecendo soluções tecnológicas que
viabilizam a implementação da saúde baseada em valor. Essas startups representam um dos três maiores
segmentos do ecossistema de inovação no Brasil, impulsionadas pela necessidade de ferramentas para coleta,
análise e uso inteligente de dados clínicos e econômicos. Assim, podem contribuir para decisões mais
assertivas, melhoria da qualidade assistencial e otimização de recursos, alinhando-se às necessidades de um
sistema de saúde mais eficiente e centrado no paciente.
OBJETIVOS
OBJETIVOS GERAIS
Este documento tem como objetivo demostrar o real impacto da assistência fisioterapêutica, descrevendo a
implementação e os resultados de dois cases de inovação realizados pelas startups Tato e SPINEDATA, que
seguiram todas as premissas necessárias para a implementação de um modelo de cuidado baseado em valor na
saúde suplementar. A proposta é demonstrar o potencial transformador da adoção de modelos de saúde baseada
em valor no manejo de condições osteomusculares na saúde suplementar brasileira, em especial, na
Fisioterapia.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Evidenciar, por meio de dados reais, o potencial de implementação do modelo de
saúde baseada em valor para o manejo de pessoas com quadros osteomusculares na saúde suplementar;
apresentar dados que demonstrem a efetividade clínica do modelo com foco em desfechos relevantes para os
pacientes, além de evidenciar os benefícios econômicos para os provedores de saúde e analisar as barreiras
comerciais que limitam seu pleno desenvolvimento; por fim, discutir o potencial de expansão do modelo no
contexto da saúde suplementar no Brasil.
MÉTODOS
Entre março de 2020 e agosto de 2023, foi implementado um serviço de fisioterapia baseado em evidências
científicas em uma clínica de um hospital de Campinas-SP, voltada a pacientes com queixas na coluna. A
clínica contava com ortopedistas, neurologistas, fisiatras, fisioterapeutas, nutricionista e psicólogo. Os
encaminhamentos para fisioterapia eram feitos por médicos da própria clínica ou externos. O modelo
implantado previa avaliação inicial individual de 1 hora e sessões de 30 minutos, também individuais, com
acompanhamento por até um ano. Os provedores de saúde acordaram um pagamento diferenciado, acima do
tabelado, visando a qualidade e a individualização do atendimento. Relatórios semestrais eram apresentados
para demonstrar evolução dos pacientes em dor, função, percepção de efeito global e satisfação.
Na primeira consulta, eram coletados dados sociodemográficos, antropométricos, hábitos de vida, informações
clínicas, questionários específicos conforme a localização e o tempo de sintomas, além da identificação de
bandeiras vermelhas para condições graves. Seguia-se anamnese e avaliação física completa (inspeção postural,
marcha, exame neurológico, testes especiais) e explicação do modelo de serviço.
A equipe utilizava o software SPINEDATA, desenvolvido para auxiliar na tomada de decisão clínica e
acompanhamento a longo prazo. O sistema reunia dados essenciais da avaliação inicial e sugeria condutas
terapêuticas embasadas em evidências, favorecendo tratamentos direcionados e evitando intervenções
inespecíficas. Pacientes também recebiam orientações para exercícios domiciliares de mobilidade e força,
ajustados à fase do tratamento, visando promover autonomia e evitar excesso de sessões presenciais.
O acompanhamento clínico incluía reavaliações em seis semanas, três, seis e doze meses. Foram coletados
dados de dor (Escala Numérica de 0 a 10), função (Oswestry Disability Index ou Neck Disability Index,
variando de 0 a 100, com maiores valores indicando maior incapacidade) e percepção global de melhora
(Escala de -5 a +5). A satisfação pós-tratamento foi medida pelo Net Promoter Score (NPS), classificando os
pacientes como promoters (9-10), detractors (1-6) e passivos (7-8), e calculando-se a pontuação final subtraindo
a porcentagem de detractors da de promoters.
A proposta valorizou a avaliação minuciosa, a definição de intervenções específicas e o monitoramento de
desfechos clínicos, alinhando-se ao modelo de saúde baseada em valor. Isso permitiu individualizar condutas,
otimizar recursos e apresentar resultados objetivos aos prestadores.
No aspecto econômico, comparou-se o uso de serviços de saúde (consultas médicas, sessões de fisioterapia e
visitas a pronto atendimento) nos 12 meses anteriores e posteriores à implementação. O modelo mostrou
potencial para melhorar a eficiência do atendimento, reduzir procedimentos desnecessários e aumentar a
satisfação do paciente, reforçando a viabilidade de sua aplicação no sistema suplementar.
Assim, o serviço implementado em Campinas demonstrou que é possível oferecer fisioterapia individualizada,
cientificamente embasada e acompanhada de indicadores clínicos e econômicos claros, promovendo melhor
desfecho para pacientes com queixas na coluna e contribuindo para práticas mais sustentáveis e eficazes na
saúde suplementar.
RESULTADOS
Ao longo de três anos, o Programa Presencial atendeu 419 pacientes no serviço. O custo por paciente foi de
R$ 482,00, incluindo R$ 6,00 referentes à comercialização do software e R$ 476,00 do custo médio do
tratamento fisioterapêutico. No período, observou-se uma redução total de R$ 47.880,00 com consultas
médicas e atendimentos em serviços de emergência, quando comparado aos meses anteriores à entrada no
programa.
Em termos clínicos, após um ano de acompanhamento, os resultados mostraram:
- Redução de 3,4 pontos na escala numérica de dor.
- Redução de 10,4 pontos nos questionários que avaliam função.
- Aumento de 2,5 pontos na escala de efeito global percebido.
Essas mudanças representam melhora clinicamente significativa. Além disso, o programa obteve um Net
Promoter Score (NPS) de 91,7%, indicando alto nível de satisfação dos pacientes.
Já o Programa Digital (TATO) contou com 507 pacientes na linha de cuidado e um grupo controle de 336
indivíduos. Após 3 meses de implementação, comparando os participantes com segurados com a mesma
condição que não participaram, foram observadas as seguintes reduções:
- 44% na taxa de internações/cirurgias.
- 35% no uso de serviços de pronto atendimento.
- 40% no custo médio por segurado.
Quando a comparação foi feita entre os próprios participantes, antes e depois da entrada no programa (período
de 3 meses), os resultados também foram expressivos:
- 37% de redução na taxa de internações/cirurgias.
- 32% de redução no uso de pronto atendimento.
- 32% de redução no custo médio por segurado.
Do ponto de vista clínico, o Programa Digital demonstrou:
- Melhora de 56% na intensidade da dor.
- Melhora de 60% na incapacidade funcional.
- Percepção global de melhora de 90%.
O índice de satisfação também foi elevado, com NPS de 94.
Síntese comparativa
Os dois modelos de intervenção – presencial e digital – apresentaram impactos significativos tanto no campo
clínico quanto econômico. No programa presencial, além da melhora contínua ao longo de 12 meses, houve
importante redução de custos diretos relacionados a consultas e emergências. O programa digital, em um
período mais curto (3 meses), apresentou resultados clínicos robustos e reduções relevantes em internações, uso
de pronto atendimento e custos, tanto quando comparado ao grupo controle quanto em relação ao histórico dos
próprios participantes.
Ambas as iniciativas mantiveram altos níveis de satisfação dos pacientes, com NPS superiores a 90, o que
reforça a boa aceitação das propostas. O impacto positivo em métricas de dor, função e percepção global sugere
que tanto o modelo presencial quanto o digital são capazes de gerar benefícios clínicos significativos e redução
de custos para o sistema de saúde, oferecendo soluções eficazes para a gestão de pacientes com condições que
demandam acompanhamento fisioterapêutico e cuidados continuados.
CONCLUSÕES
Os resultados obtidos demonstram que a o modelo de cuidado centrado no paciente, mensurado e personalizado
foi eficaz para identificar e mensurar os impactos positivos da assistência fisioterapêutica, tanto no modelo
presencial quanto no digital. As evidências apontam que o acesso precoce ao fisioterapeuta dentro da linha de
cuidado gera melhoras clínicas significativas, com redução da dor, melhora funcional e alta percepção de
benefício por parte dos pacientes, refletida em NPS acima de 90.
Além dos ganhos clínicos, houve redução expressiva de custos diretos e indiretos para o sistema de saúde,
incluindo diminuição de internações, cirurgias, uso de pronto atendimento e custos médios por paciente. Esses
resultados reforçam que a fisioterapia, quando integrada de forma estruturada, é custo-efetiva e contribui para
otimizar recursos, mantendo a qualidade da assistência.
O modelo remuneratório baseado em valor mostrou-se adequado e satisfatório para reconhecer e valorizar a
assistência fisioterapêutica, fortalecendo a importância de iniciar o cuidado com o fisioterapeuta desde as fases
iniciais do tratamento e garantindo melhores desfechos para pacientes e para o sistema de saúde.
IMPLICAÇÕES
O presente estudo foi motivado por uma cooperação técnica entre a Agência Nacional de Saúde Suplementar
(ANS) e o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 4ª Região (CREFITO-4), \través de
edital tendo Flávia Massa Cipriani como líder representativo, cujo objetivo central é promover a atualização e a
implementação de novos modelos de remuneração no Brasil, considerando a qualidade e o valor percebido pelo
paciente. Essa iniciativa está alinhada às tendências internacionais de valorização da assistência em saúde
baseada em valor, nas quais a remuneração dos prestadores considera não apenas a quantidade de serviços
prestados, mas também seus resultados clínicos, a efetividade das intervenções e a experiência do paciente.
A partir dos levantamentos e análises apresentados à ANS, identificou-se um forte potencial para a adoção de
modelos remuneratórios inovadores no sistema de saúde suplementar brasileiro. Esses modelos apresentam
especial relevância para a assistência fisioterapêutica, dada a importância estratégica do acesso precoce do
paciente à reabilitação, especialmente no início da trajetória de cuidados após um evento em saúde, como
lesões, cirurgias ou condições crônicas.
A adoção de modelos centrados em valor para a fisioterapia permite alinhar três dimensões fundamentais:
1. Valor para o paciente, refletido na melhoria de sua funcionalidade, autonomia e qualidade de vida;
2. Efetividade clínica, evidenciada por protocolos baseados em evidências e por indicadores de desfecho
mensuráveis;
3. Sustentabilidade econômica, promovendo o uso racional dos recursos e a redução de custos decorrentes de
complicações, reinternações e prolongamento desnecessário de tratamentos.
Essas diretrizes encontram respaldo no conceito de Saúde Baseada em Valor (SBV), que propõe uma
transformação na lógica de financiamento e gestão dos serviços de saúde. Na SBV, o pagamento não é apenas
proporcional ao número de procedimentos realizados, mas vinculado aos resultados obtidos e ao impacto real
na vida do paciente. Essa abordagem favorece a integração das equipes multiprofissionais, o acompanhamento
contínuo e a personalização do cuidado.
Considerando os resultados preliminares e o potencial identificado, recomenda-se a realização de estudos
multicêntricos, abrangendo diferentes perfis assistenciais e realidades regionais. Tais investigações poderão
consolidar evidências científicas robustas que sustentem a implementação de políticas públicas e privadas
voltadas para a adoção ampla e estruturada da SBV no Brasil.
Ao investir na ampliação do acesso precoce à fisioterapia e na remuneração baseada em valor, cria-se um ciclo
virtuoso no qual pacientes obtêm melhor recuperação funcional, prestadores são reconhecidos por sua
efetividade e o sistema de saúde como um todo ganha em eficiência e sustentabilidade.
Assim, a cooperação entre ANS e CREFITO-4 representa um marco importante na construção de um modelo
de saúde suplementar mais justo, maior valorização da profissão, resolutivo e centrado no paciente, com
potencial para servir de referência a outras áreas assistenciais no país.