Prescrições curriculares, plataformização da educação e formação de professores: a quem pertence a aula de História?
DOI:
https://doi.org/10.18554/cimeac.v16i1.9178Resumen
Este artigo problematiza transformações recentes nas políticas educacionais brasileiras a partir de uma questão: a quem pertence a aula de História? Tomando como referência debates sobre currículo, experiência e trabalho educativo, analisamos três processos que marcaram a última década: a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a expansão das plataformas digitais na educação básica e as recentes reformulações das diretrizes para a formação inicial de professores. Metodologicamente, mobilizamos a noção benjaminiana de mônada para construir três cenas capazes de condensar contradições mais amplas das sociabilidades contemporâneas e de seus impactos sobre o ensino de História. Em seguida, interpretamos essas cenas à luz do conceito de “mística da prescrição”, desenvolvido por Ivor Goodson, compreendendo-o como uma racionalidade que desloca progressivamente a autoridade sobre o trabalho educativo para currículos prescritos, sistemas de monitoramento, avaliações externas e dispositivos gerenciais. Argumentamos que BNCC, plataformização e reformas da formação docente não constituem fenômenos isolados, mas expressões complementares de um movimento voltado à antecipação, padronização e administração das experiências escolares. Para o ensino de História, tal movimento implica a redução da complexidade da aula a competências, indicadores e evidências de desempenho, enfraquecendo sua dimensão interpretativa, crítica e experiencial. Em contraposição, sustentamos que a aula é uma produção coletiva, constituída nos encontros entre professores, estudantes e conhecimentos socialmente elaborados. Concluímos que, embora as políticas contemporâneas busquem ampliar os mecanismos de controle sobre o trabalho educativo, algo da experiência escolar permanece refratário à prescrição, preservando possibilidades de criação, disputa e produção de sentidos sobre o mundo social.
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